Baleia Branca

Após os ataques terroristas em Bruxelas, na Bélgica, assim como aconteceu na ocasião dos ataques de Paris, em novembro de 2015, uma onda antisemita varreu as mídias sociais, inclusive no Brasil, onde o completo desconhecimento sobre o mundo Árabe só não é maior que o preconceito quanto a ele. Inclusive, líderes políticos que representam uma nova direita, moralista e conservadora, utilizam as tragédias na Europa como propaganda nacionalista em um país como o nosso, que tem sua formação baseada na pluralidade cultural.

Com cerca de 35 milhões de habitantes, vivendo em extrema crise há cerca de 30 anos, com diversos embargos econômicos, corrupção generalizada e falência total do estado, enfrentando os radicalismos de uma guerra sectária pós-ocupacão estrangeira e insurgência, sem nenhuma estrutura de segurança pública confiável e nenhuma perspectiva de avanço social ou financeiro, o Iraque apresenta, atualmente, o maior índice de violência de sua história, com 17 mil mortes de civis e, estimadas, 5 mil mortes de soldados e milicianos em 2014.

Apenas para uma rápida comparação, o Rio de Janeiro apresentou entre 5 a 6 mil assassinatos e mortes decorrentes de violência nesse mesmo período, além de aproximadamente 8 mil desaparecimentos registrados. A população do Rio, entretanto, é de aproximadamente 6 milhões de habitantes, seis vezes e meia menor que a do Iraque. Vale lembrar que no ranking da violência das capitais brasileiras, a cidade carioca está apenas em 13º lugar. Fortaleza ocupa a primeira posição com 77,34 mortes violentas a cada 100 mil habitantes. A violência no Brasil, diferente de uma zona de guerra, não é epidêmica, mas endêmica

Olhamos os países e conflitos que desconhecemos com desprezo. Mas nosso desprezo não é apenas um sinal de afastamento emocional ou cultural, nosso desprezo é edificação da nossa ignorância como nação. Defendemos, demagogicamente, uma paz que não temos. A estrutura de segurança do Brasil está esgotada, faz parte do sistema axiomático de marginalização da nossa cultura, individualista. Nos falta educação para promover civilidade e empatia social, mas defendemos cruzadas distantes contra povos que queremos manter distantes. Em outras palavras, enquanto o discurso político unilateral proclamar a esperança – ou desculpa – de encontrar a paz, ele terá justificativa para promover a guerra!

Hoje, essa paz é uma baleia branca. Buscá-la é uma obsessão tão nociva quanto assumir nossa própria necessidade de violência. Não obstante, somos uma doença apenas por acreditar que podemos ser a cura.

Autor de livros inacabados, pensamentos acelerados e discursos exagerados que tendem a viver entre a realidade e a mais profunda utopia.

O Complicado Cenário Francês

Para quem está acompanhando os ataques em Paris, eles acontecem em um momento sócio-político bastante complicado no país, com um recente crescimento de partidos de extrema-direita e inclinações xenofóbicas, que escalaram rápidamente com a chegada dos imigrantes sírios e a suspeita de que terroristas estariam aproveitando a situação para se infiltrar em cidades europeias.

Esses ataques, independente da autoria, não apenas tiraram dezenas de vidas, mas também ameaçam diretamente a empatia com povos oriundos do oriente médio e prejudicam as ações humanitárias ao promover o medo. O retrocesso social é enorme, um dia como hoje consolida o preconceito e dá voz para radicais, racistas e evangelistas da segregação, atrasando a tarefa quase impossível de oferecer abrigo seguro e um futuro para as famílias que tentam escapar dos mais diversos conflitos atuais.

É importante lembrar, nessa hora, que o medo já foi desculpa para cercear a liberdade e manipular a opinião pública diversas vezes, promovendo a cultura de ódio que já deixou cicatrizes profundas em nossa história. Além disso, a violência não é um fator cultural, mas social, pois até mesmo em um país com a diversidade do Brasil, a degradação do valor da vida humana pode ser percebida nas ruas de qualquer cidade, todos os dias. É preciso parar de elencar diferenças e tentar entendê-las com parte de nossa humanidade, a única coisa que partilhamos, ou deveríamos partilhar. Infelizmente, os atos de hoje terão respostas, mas, como sempre, elas serão completamente divergentes das soluções.

Autor de livros inacabados, pensamentos acelerados e discursos exagerados que tendem a viver entre a realidade e a mais profunda utopia.